[ editar artigo]

Educação Física não tem receita!

Educação Física não tem receita!

Duas colheres de sopa de preguiça e meio quilo de falta de conhecimento. Esses ingredientes bastam para que frases como “3 de 10 para ficar forte, 3 de 15 para secar” ou “3 de 10 para crescer, 3 de 15 para definir”, dentre outras, se tornem tão difundidas e populares no meio da educação física.

Leia também: SIT- Sprint Interval Training: Você sabe o que é?

É muito comum ouvirmos pessoas repetindo e perpetuando essas informações como se houvesse uma única e exclusiva dose de volume de treino para “ficar forte” ou “crescer” e outro método fixo e rígido para “secar” ou “definir” e que podem ser prescritos a todos os mais de 7 bilhões de indivíduos existentes no planeta.

Porém, a grande verdade - como muitos devem saber - é que as tentativas de se replicar um protocolo de treino ou um volume pré-determinado a muitas pessoas com objetivos aparentemente similares de forma arbitrária não são nem um pouco embasadas cientificamente. 

Segundo o princípio da individualidade, cada pessoa possui características únicas que determinam o ritmo e o grau das adaptações às quais ela é submetida, conduzindo à constatação clara e evidente de que só por que uma intervenção ou um protocolo de treino trouxe resultados ótimos para uma pessoa, não significa necessariamente que o mesmo ocorrerá com outra. E isso faz com que as falácias e generalizações citadas aqui caiam por terra.

Leia também: Pós-pandemia e atividade física: Qual será o cenário?

A realização de anamneses, identificação do status de treinamento e dos objetivos do aluno, bem como a avaliação de suas expectativas, eventuais comorbidades, histórico familiar, possível modalidade esportiva praticada, dentre outros, são alguns fatores que devem ser levados em conta ao se prescrever um treinamento.

A delimitação de fatores como intensidade, volume, frequência, intervalo entre as séries e quais exercícios são mais apropriados para o indivíduo naquele momento deve considerar todas as informações supracitadas, a fim de que o aluno não realize um treino “para crescer” ou “secar”, mas sim que aplique um protocolo de treino personalizado e adequado às suas necessidades, permitindo-o atingir seus objetivos de forma segura, eficiente e eficaz.

Porém, apesar de muitos profissionais da área alegarem ter pleno conhecimento a respeito do exposto, tornou-se cada vez mais comum - principalmente após o início da quarentena - a adoção de lives promovidas por personal trainers que - embora imbuídos da melhor das intenções 

acabam por incentivar a realização de exercícios físicos por pessoas sobre as quais ele não consegue ter controle, uma vez que não se pode restringir o acesso de pessoas a uma live no Instagram.

Em termos práticos, agindo dessa forma, o personal acaba por “prescrever” um protocolo de treino a indivíduos de diversas faixas etárias, com possibilidade de comorbidades e limitações particulares e com status de treinamento diversos, o que pode levar até mesmo à ocorrência de lesões, ao sentimento de frustração por não conseguir realizar algum exercício e à ideia de que “o exercício físico não é pra mim”.

Dessa forma, nós, representantes da área, devemos nos perguntar:

Qual o papel devido e correto do profissional de Educação Física nesse cenário?

Abaixo seguem alguns bullet points que talvez deem uma luz ao que pode ser feito nesse contexto:

  1. Munir-se de conhecimento teórico adequado: Estudar, estudar e estudar;

  2. Ter senso crítico: Você pode estar estudando algo errado, então sempre analise o que está sendo consumido em termos de conhecimento e busque referências;

  3. Aplicar na prática de forma correta o conhecimento adquirido: a frase “quem está na chuva é pra se molhar” é só para quem não usa guarda-chuva. Se você estudou e ainda está se molhando, é porque o seu guarda-chuva do conhecimento ainda não está sendo usado da melhor forma. Use-o sem medo!

  4. Utilizar as mídias sociais e suas ferramentas de maneira correta e a seu favor: da mesma forma que muitos personais fizeram lives para diversas pessoas simultaneamente durante a quarentena, houve também aqueles que fizeram treinos ao vivo com somente um de seus alunos, o que não é errado (desde que o aluno se sinta confortável), evidencia a importância do acompanhamento do profissional de educação física e cria um espaço para...

  5. ...reforçar a importância da prescrição personalizada e individualizada do treinamento: através das redes sociais você pode produzir conteúdo de qualidade e influenciar as pessoas que te acompanham a enxergarem a importância da prescrição personalizada, além de ampliar suas oportunidades de negócio;

  6. Corrigir conteúdos e informações errôneas: principalmente de pessoas que não são formadas na área, mas se comunicam com ela e influenciam pessoas.

Espero que essas dicas te ajudem e que possamos refletir juntos sobre nossos acertos e erros como representantes da Educação Física, pois como já diria Confúcio, “não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros” - e persistir na ideia de que há “receitas de bolo” na Educação Física é um deles.


Thiago Augusto Primon Girardi

Instagram: @thiprimon

Esporte & Movimento
Thiago Augusto Primon Girardi
Thiago Augusto Primon Girardi Seguir

O esporte é a melhor forma de unir pessoas.

Ler conteúdo completo
Indicados para você