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Como o conhecimento da Biomecânica pode ajudar a definir estratégias de treino na prática?

Como o conhecimento da Biomecânica pode ajudar a definir estratégias de treino na prática?

Como discutido em textos anteriores, a Educação Física e a prescrição de exercícios não possuem receita e não podem ser reduzidas a “hoje o treino é peito?, então 3 de 15 de supino é o número. Vai pegar bem o peitoral. Birl”. Isso é preguiça, falta de conhecimento e, algumas vezes, até mau-caratismo.

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Porém, a grande questão é: como usar o conhecimento científico da área na prática para evitar essas regras prontas, uma vez que muitos ainda se apegam a elas? 

Um dentre os vários exemplos que podem ser citados e que ilustram como o personal trainer pode utilizar a ciência - mais especificamente a Biomecânica - a seu favor, é a resposta à pergunta: há diferença entre inclinar ou declinar o banco no supino?

A resposta é, obviamente, que há diferença. Mas não para por aí, uma vez que é justamente na definição e no aprofundamento dessas diferenças que as estratégias são traçadas com mais precisão e o conhecimento utilizado em maior extensão.

Quando devo usar o banco declinado? E o inclinado? Quais os prós e contras de cada um? Eles variam de acordo com o aluno? Com o objetivo dele? Com suas necessidades e limitações? Com seu nível de treinamento? Quais os riscos de cada estratégia? Eles são potencializados para praticantes de um determinado esporte? Perguntas como essas podem expressar melhor o que quero dizer, pois não basta saber se há diferenças entre um e outro; devemos saber como utilizá-las a nosso favor em cada cenário.

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Não gosto muito do provérbio alemão a seguir, mas ele retrata muito bem o meu ponto: o diabo mora nos detalhes. Nesse caso, o diferencial entre um profissional e outro - e não só o diabo - é que mora neles. São esses detalhes que muitas vezes definirão se o conhecimento é aplicado da maneira correta ou se o treino prescrito é somente achismo do instrutor.

Para ilustrar melhor meu ponto, vamos responder à pergunta.

LAUVER et al. (2016) elaboraram um estudo para responder se inclinar ou declinar o banco no supino muda alguma coisa em termos de ativação dos músculos envolvidos. Após os testes, observou-se que quanto maior a inclinação do banco, de fato ocorria maior ativação do Peitoral Clavicular (PC). No entanto, o que chamou mais atenção foi o aumento mais significativo ainda da atividade eletromagnética (EMG) do Deltóide Anterior (DA) com o banco mais inclinado.

De forma análoga, quanto mais declinado o banco, menor a atividade EMG do DA, uma vez que a barra se movimenta mais próxima ao centro de gravidade do indivíduo nessa posição.

Esses fatos levaram à conclusão de que a declinação ou inclinação do banco não exerce diferença tão significativa para a ativação do Peitoral Clavicular (PC), mas sim para o DA. E isso é um detalhe importante a ser levado em conta, pois uma lesão no DA pode ser fator impeditivo para a realização do supino com banco inclinado, por exemplo.

Munido desse conhecimento, o personal trainer pode definir estratégias de acordo com o perfil do aluno. Se o indivíduo tem tempo de sobra para treinar e não apresenta lesões ou estresses excessivos no deltóide, o interessante seria realizar o supino com o banco inclinado, uma vez que aumenta a atividade do DA e do PC e o recrutamento muscular por conseguinte. Porém, caso o indivíduo seja um nadador, possua estresse significativo no DA de forma recorrente ou lesão, e precise ainda assim exercitar o peitoral, o mais apropriado seria realizar o supino com o banco declinado. Isso se justifica pelo menor braço de alavanca e menor exigência do DA nessa situação. Dessa maneira o atleta estaria trabalhando o peitoral, mas em condições adequadas à sua necessidade.

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Assim, pode-se perceber que cada caso é um caso e que os exercícios são meras ferramentas para atingir objetivos de forma segura, cabendo ao personal trainer saber como e quando utilizar cada uma delas. E é aí que o conhecimento entra.

Deter o conhecimento científico é importantíssimo, mas saber como aplicá-lo de forma correta é ainda mais, pois é isso que separa o joio do trigo, as crianças dos adultos, os gregos dos troianos e, em última instância, os bons e os maus profissionais. Portanto, se o diabo mora nos detalhes, o mais sensato a se fazer é prestar atenção neles.

 


Referência: LAUVER, Jakob D.; CAYOT, Trent E.; SCHEUERMANN, Barry W. Influence of bench angle on upper extremity muscular activation during bench press exercise. European journal of sport science, v. 16, n. 3, p. 309-316, 2016.


Thiago Augusto Primon Girardi

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