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Disciplina ou motivação: o que realmente devemos buscar no processo de treinamento?

Disciplina ou motivação: o que realmente devemos buscar no processo de treinamento?

Hoje acordei com fome. Despertei mais cedo do que o usual, mas mais faminto do que o normal. Antes de sair da cama senti meu estômago roncar e até pensei que fosse um sonho, mas não, não era... eu já estava acordado. Munido de uma vontade gigantesca de comer um delicioso pão na chapa com o sagrado café com leite matinal, calcei meus chinelos e, ao invés de ir à cozinha matar quem estava me matando, permaneci no meu quarto para arrumar a cama. 

Depois de organizar meu jogo de cama da melhor forma que pude, agora sim! Agora era hora de comer, certo? Errado! Após minha segunda tarefa do dia, peguei a roupa que vestiria e fui ao banheiro para escovar os dentes e tomar banho. Após isso fiz a barba. Após a barba, organizei minha mochila do trabalho com tudo o que precisava e, finalmente, desceria para comer.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia... ainda precisava levar meu cachorro passear e isso era prioridade. Afinal de contas, ele fica a noite inteira esperando para se aliviar. Meu estômago poderia esperar mais um pouco. Então lá fui eu levar o meninão e, quando voltei, finalmente me sentei à mesa para tomar café.

No mesmo instante, minhas irmãs acordaram e foram até a cozinha e, como bom irmão mais velho que sou, perguntei o que ambas queriam comer. Elas me responderam em uníssono: “pão na chapa e leite com chocolate, Thi”. E lá fui eu - com fome e ainda com a barriga roncando - atender ao pedido delas, pois tinham aula em poucos minutos e mais urgência do que eu quanto ao horário.

Após atender à solicitação das pequenas, me pus a preparar meu próprio café. Com tudo pronto, sentei para comer e fiquei satisfeito. A partir daí, de fato comecei meu dia e posso dizer que foi uma boa manhã. Tudo aconteceu na ordem devida.

“Mas Thiago, por que raios você contou toda essa história?” 

Sei que o exemplo pode ter sido simples e até simplório - e até mesmo um pouco distante do exercício físico -, mas a verdade é que ele tem muito a ver com o título do texto: devo ser orientado pela motivação ou pela disciplina? O que devo buscar? Continue esse texto e entenda.

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Na história da minha manhã, se eu priorizasse a motivação em detrimento da disciplina, talvez a minha cama teria sido a última coisa que eu faria ao invés da primeira. Se atendesse à minha ânsia por comida de forma imediata assim que levantasse da cama, talvez não me sentisse tão disposto quanto me senti após o banho; ou talvez meu cachorro não teria aguentado se segurar mais e me causaria um outro problema (vocês sabem do que estou falando). Se atender à motivação ou ao desejo do meu corpo fosse a prioridade inadiável, até mesmo as minhas irmãs poderiam ter se atrasado para a aula.

Contudo, como a disciplina talvez tenha sido a “chave-mestra” nessa situação corriqueira e ordinária, todas as portas se abriram na hora e na sequência corretas, inclusive a que dizia respeito à minha vontade de comer. O fato é que, apesar de ser um exemplo banal, mostra muito como podemos ser e inspirar nossos alunos a serem com relação ao exercício físico: por mais que façamos um esporte ou uma atividade que gostemos, nem todos os dias teremos vontade de treinar ou motivação para tal. Isso é fato. E é aí que a disciplina entra.

A disciplina não pressupõe necessariamente sempre deixarmos de fazer coisas que gostamos ou precisamos simplesmente porque temos outras prioridades. A ideia não é excluir tudo que é banal e deixar somente o que é “importante”, até porque o banal importa. Mas a ideia de disciplina implica justamente em não abrirmos mão de fazermos as coisas importantes mesmo que não queiramos fazê-las agora.

A disciplina remete ao cumprimento de uma organização pré-estabelecida: se só tenho um horário vago no dia para treinar, vou utilizá-lo para este fim mesmo que eu não esteja motivado no momento, pois entendo a importância de cuidar da minha saúde, assim como entendo a importância de arrumar minha cama pela manhã. E ela é maior do que minha motivação ou vontade momentâneas.

Nossos alunos sabem e têm consciência de que fazer exercícios regularmente impacta positivamente sua saúde no longo prazo, e mesmo que não sintam vontade de treinar hoje, ainda assim devem cumprir com seu compromisso tendo em vista a importância da tarefa. Partindo desse pressuposto e considerando a baixa retenção das academias, temos a seguinte reflexão: como nós professores de Educação Física temos contribuído para a saúde dos nossos alunos? Estamos simplesmente prescrevendo treinamentos ou auxiliando-os a ter, de fato, uma vida saudável e sustentável a longo prazo?

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Como já disse Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito”; e, levando em conta o fato de que nossas motivações são extremamente inconstantes, persistir atendendo-as incansavelmente é andar em círculos em torno do próprio umbigo e distante do êxito pretendido. A persistência pressupõe a disciplina de manter o foco e de se afastar, algumas vezes, das nossas próprias vontades. 

Voltando à minha história, por mais que eu estivesse com muita vontade de comer, fazer o café das minhas irmãs era mais importante naquele momento do que minha fome. Levar meu cachorro para passear era mais importante naquele momento do que minha fome. Tomar banho e organizar minha mala era mais importante naquele momento do que minha fome. Minha vontade de comer não teve sua importância diminuída e nem deixou de ser atendida, mas foi saciada no momento certo e de acordo com a necessidade e a urgência.

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Imagino que até aqui você tenha concordado comigo. Devemos ter ordem e disciplina em nossas rotinas. Mas e quando se trata do exercício físico na prática? O que nós e nossos alunos temos priorizado? Nossa fome pela zona de conforto ou a disciplina para cuidar com afinco do que realmente importa: a nossa saúde?


Thiago Augusto Primon Girardi

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