[ editar artigo]

Osso duro de roer?

Osso duro de roer?

Quantas vezes você já não viu ou ouviu falar daquelas famosas “entradas criminosas” que um jogador aplica em outro durante uma partida de futebol? Ou então já não se angustiou ao ver aquela fratura que o lutador Anderson Silva sofreu numa de suas lutas, deixando seu pé praticamente pendurado e tirando-o dos octógonos do UFC por mais de um ano?

Leia também em: Tamanho não é documento!

Fraturas provocadas por situações como as citadas acima, geralmente ocorridas durante a realização de competições esportivas, tem relação direta com um conceito da Física aplicado a diferentes áreas do conhecimento humano, como a Geologia e a Biomecânica, por exemplo. Estamos falando da anisotropia!
 


Anisotropia, segundo Einhorn (1993, apud Souza et. al., 2009), significa que as propriedades mecânicas de uma determinada substância não são iguais em todas as direções, e o osso humano possui esta propriedade.


Ah, o osso... será que é tão “duro de roer” assim?

Segundo Dalmolin et al. (2013), o osso, assim como a pele e os músculos, é constituído por um tipo específico de tecido (no caso do osso, o tecido ósseo), e que devido às suas propriedades materiais (também chamadas propriedades biomecânicas) tornam o osso responsável por sustentar a estrutura do corpo humano e de outros animais. Mas diferente do que muitos de nós geralmente pensamos (ou pensávamos), o osso não é totalmente duro, tendo diferentes níveis de rigidez conforme a profundidade do tecido (quanto mais próximo da superfície do osso, mais compacto o mesmo é, e quanto mais próximo de seu interior, mais esponjoso).

A possibilidade de ocorrer lesões ósseas, popularmente chamadas de fraturas, depende, em grande parte, destas propriedades biomecânicas do tecido ósseo. Elas podem ser influenciadas por diferentes fatores como o conteúdo mineral, a densidade óssea e a orientação das fibras de colágeno, dentre outros, como afirmam Mesquita et al. (2010) e Melo Filho (2012).

A anisotropia óssea é um destes fatores que interferem diretamente na chance de um osso fraturar ou não.

Como podemos observar no gráfico acima, conforme o ângulo de aplicação de uma força sobre o osso muda (de 0° a 90°), o mesmo aguenta menos ou mais carga (no gráfico, “stresse”) até sofrer uma deformação significativa, o chamado ponto de fratura do osso (no gráfico, o círculo vermelho). Por exemplo: no ângulo de 0° - letra “L”, de longitudinal (ou seja, quando a força é aplicada verticalmente), o osso suporta uma grande carga. Ou seja, para o osso sofrer uma fratura devido a uma carga aplicada verticalmente, é necessário literalmente “forçar muito”. E conforme o ângulo de aplicação da força sobre o osso vai aumentando, o osso suporta cada vez menos carga até atingir o ponto de fratura.

E como podemos ver, é a 90° - letra “T”, de transversal (ou seja, quando a força é aplicada horizontalmente), que mora o perigo! Quando uma carga é aplicada diretamente no sentido horizontal sobre o osso, o mesmo suporta pouquíssima carga, o que faz com que uma fratura aconteça com muito mais facilidade se a carga for aplicada neste ângulo.

É por isso que no futebol, com os carrinhos, ou na luta do Anderson Silva, para tomar como exemplo, fraturas tão chocantes podem ocorrer; pois o mesmo aplicou o golpe num ângulo de 90° graus em relação à canela do lutador adversário.

Por um lado, esta característica anisotrópica do osso é muito importante para nós, seres humanos, e também para os outros animais, pois imagina só se fosse ao contrário – “e se o osso aguentasse menos carga no sentido longitudinal (ou seja, na vertical) do que no sentido transversal (horizontal)?”. Bem, tem uma força que desde a barriga da nossa mãe até o fim das nossas vidas aplica carga sob as nossas cabeças de forma constante e inequívoca: A força da gravidade (e eu te garanto, ela é BEM mais poderosa do que qualquer carrinho de jogador por aí...)! Por esta razão, é fundamental que nossos ossos, e por consequência, nosso esqueleto, possuam esta característica, já que nos encontramos constantemente sob efeito desta força presente na natureza, enquanto cargas aplicadas transversalmente são bem menos comuns em nossas vidas.

Leia também em: Perfil comportamental como ferramenta do Personal Trainer

É mais do que importante, assim, conhecermos nosso corpo e suas propriedades biomecânicas, especialmente para nós, como profissionais da educação física, pois somos diretamente responsáveis pelo cuidado e zelo para com os corpos das pessoas com as quais atuamos, pois independente disto ou daquilo ser considerado bom ou ruim, é assim que a “coisa toda” funciona, o que neste caso podemos dizer que se trata, literalmente, de “ossos do ofício”.

 


Referências Bibliográficas:

DALMOLIN, F. et al. Biomecânica óssea e ensaios biomecânicos: fundamentos teóricos. Ciência Rural, Santa Maria, v. 43, n. 9, p. 1675-1682, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782013000900022&lng=en&nrm=iso>.

MELO FILHO, E. V. et al. Utilização da tomografia computadorizada quantitativa como teste de resistência para avaliação de placas ósseas. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.64, n.3, p.766-768, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-09352012000300033&script=sci_arttext>.

MESQUITA, L. R. et al. Atuação das forças de compressão e flexão sobre fraturas experimentalmente induzidas em fêmures de caninos estabilizados com a associação da haste intramedular bloqueada e placa óssea (plate-nail) e com a associação do pino intramedular e placa óssea (plate-rod) - estudo comparativo. In: CONGRESSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, 19., 2010, Lavras-MG. Anais... Disponível em: <http://www.sbpcnet.org.br/livro/lavras/resumos/937.pdf>.

SOUZA, R.A. et al. Propriedades mecânicas do tecido ósseo e risco de fraturas. In: ENCONTRO LATINO AMERICANO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, 9.; ENCONTRO LATINO AMERICANO DE PÓS-GRADUAÇÃO, 5., São José dos Campos-SP. Anais... São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba, 2009. 3p.

Esporte & Movimento
Mateus Macedo de Araujo
Mateus Macedo de Araujo Seguir

Ler conteúdo completo
Indicados para você