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Tamanho não é documento!

Tamanho não é documento!

Quantas vezes você já não ouviu ou até mesmo falou a frase "tamanho não é documento"? Tenho certeza de que pelo menos uma vez na vida, já!

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O ditado popular “tamanho não é documento” é utilizado em diferentes contextos e um deles é quando da comparação entre pessoas altas x pessoas baixas. Se eu, por exemplo, pedir para alguém dizer quem, entre uma pessoa alta e uma baixa, é a mais forte, muito provavelmente dirão que é a mais alta. E se eu pedir para escolher entre uma pessoa muito baixa e uma pessoa muito alta, qual dos dois perfis é o mais rápido(a), sem titubear responderão que é o(a) baixinho(a).

Bom, infelizmente estarão errados! Mas claro, tem um motivo por trás disso, que se chama “alavanca”. Mas o que é mesmo alavanca? Bem, para relembrar, vamos ao exemplo dado por Furlan:


“Imagine agora uma menina de 12 anos brincando de carregar sua irmã, de 15 anos, num carrinho de mão. Agora pense: será que ela aguentaria erguê-la apenas segurando-a pelos braços, sem ajuda do carrinho? Pois é, acho pouco provável também. O carrinho de mão, portanto, é uma máquina que auxilia o deslocamento de um corpo ou de vários corpos, porque funciona como um tipo de máquina simples, a alavanca.”


Com este exemplo, tenho certeza de que o conceito de alavanca ficou mais fresco em sua memória. Assim como o carrinho de mão citado por Furlan, várias outras “máquinas” funcionam assim, desde um enorme guindaste até um pequeno alicate e até mesmo nossa querida gangorra.

Assim sendo, alavanca, de acordo com Teixeira, é uma máquina de simples funcionamento, usada para facilitar a aplicação de uma força por uma pessoa ou estrutura e que é constituída por três elementos:

  • PA – Ponto de Apoio: o ponto ao redor do qual a alavanca pode girar;
     
  • FR – Força de Resistência: força exercida pelo objeto que se deseja mover, sustentar, equilibrar;
     
  • FP – Força de Potência: força exercida sob o objeto que se deseja mover, sustentar, equilibrar;

Para facilitar, veja os exemplos na imagem abaixo:

Mas você deve estar se perguntando: “O que isso tem a ver com altões e baixinhos, ser forte ou ser rápido?” Bem, como vocês podem ver na imagem, dependendo de onde cada um dos três pontos que constituem a alavanca localizam-se no sistema, diferentes tipos de alavancas são formadas (interfixas, inter-resistentes e interpotentes). O corpo humano possui, em sua grande maioria, alavancas do tipo interpotente, em que o ponto de apoio se encontra em uma extremidade (no caso do corpo humano, as articulações), o ponto de potência no meio (em nós, os músculos) e o ponto de resistência na outra extremidade (geralmente o objeto que desejamos mover).

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Cada tipo de alavanca, devido à sua configuração, é responsável por gerar um tipo específico de vantagem. No caso das alavancas interfixas, a vantagem é nula, sendo que “quem vai sair ganhando” é aquele que exercer mais força ou peso (lembre-se da gangorra para este caso). Nas inter-resistentes, a vantagem é para quem exerce a força (lembra-se do exemplo das irmãs brincando no carrinho de mão? Então, esse mesmo). E por último, na interpotente, a vantagem acaba sendo para quem está sob exercício da força.

“Mas como assim?”, você se pergunta. Bem, vamos a um exemplo bem prático: Pare agora mesmo de ler este texto e pegue algum objeto relativamente pesado que você tenha aí por perto! Achou? Ótimo! Agora, segure-o por um tempo, com uma das mãos somente e com o braço totalmente estendido. Difícil, não é mesmo? E se você segurá-lo agora, ainda com uma das mãos, um pouco mais próximo do corpo? Facilitou, não é mesmo? Se você agora colocá-lo bem próximo ao corpo, quase colado, tenho certeza que vai aguentar por um bom tempo, certamente.

Isto foi para demonstrar que as alavancas que temos no nosso corpo (as interpotentes, estão lembrados?) tendem a não nos ajudar na aplicação de força, pois estando os nossos membros, tanto superiores quanto inferiores, distantes da origem do músculo (a articulação), fica difícil, como você sentiu por aí, sustentar um objeto por um longo período de tempo. E quanto mais longos são nossos membros, mais complicado fica essa situação.

Agora imagine então uma pessoa alta, como aqueles jogadores de basquete e aquelas jogadoras de vôlei, se fizessem este mesmo teste que você (claro, com um objeto de peso equivalente para eles). A força que eles teriam que exercer seria proporcionalmente maior do que a força que você exerceu, pois pessoas mais altas tendem a ter membros mais longos, e assim, não possuem esta “vantagem biomecânica” para exercerem força, diferente das pessoas baixinhas, que por terem geralmente membros mais curtos, tem esta vantagem para aplicar força a seu favor.

Mas se você é daqueles(as) que beira os 2 metros de altura, não fique triste: sua vantagem biomecânica é para outra coisa – a velocidade!

A alavanca interpotente pode não ser muito boa para aplicar força (diferente da inter-resistente, que é perfeita para isso!), mas é ideal para a aplicação de velocidade, pois quanto mais longe do ponto fixo o ponto de resistência estiver (traduzindo, quanto mais longe da articulação a extremidade do braço ou da perna estiver), mais fácil será para atingir uma velocidade tangencial alta, pois com um braço ou uma perna longa, a amplitude do movimento é maior (é só lembrar que geralmente uma passada de alguém bem alto dá duas ou até três passadas de pessoas mais baixas)!

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Assim, é importante termos ciência de tudo isto, pois dependendo da nossa estatura (e claro, de variados outros fatores além dos biomecânicos), temos mais aptidão/potencialidade para exercer força ou para velocidade.

Como profissionais da Educação Física, conhecer estas diferenças é crucial para compreender melhor como trabalhar, por exemplo, com os atletas pelos quais você é responsável. É o primeiro passo antes de tudo! 

E por fim, voltando ao nosso título, entendeu agora porque “tamanho não é documento”? Lembre-se de ter cuidado se algum dia você for dizer essa frase perto de um “Arthur Zanetti” da vida... É melhor você ser um “Usain Bolt” e dizer “pernas pra que te quero!”.

 


Referências Bibliográficas

ANDRADE, F. L. As alavancas do corpo humano jogando com a interdisciplinaridade. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente, 92p., 2015.

TEIXEIRA, M. M. Alavanca. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/fisica/alavanca.htm.

Esporte & Movimento
Mateus Macedo de Araujo
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